Palavras Dispersas

Os meus momentos divinos #25

Ter uma visita surpresa de uma amiga que me é muito, mas mesmo muito querida, seguido de um bom jantar e muita conversa fiada sobre aquilo que nos apaixona a ilumina.
Hoje foi um dia bom, diria até que foi um dia e uma noite outstanding!


Ainda bem que é sexta-feira! #16

Eles enterram o País o povo aguenta
Mas qualquer dia a bolha rebenta
De boca em boca nas redes sociais
Ouvem-se verdades que não vêm nos jornais
Ter carro é impossível
Tive que o vender para ter combustível
Tenho o passe da Carris mas hoje estão em greve
Preciso de boleia, alguém que me leve

É sexta-feira
Suei a semana inteira
No bolso não trago um tostão
Alguém me arranje emprego
Bom Bom Bom Bom
Já Já Já Já


Dos últimos filmes

Albert and his horse Joey: separated by war, tested by battle, bound my frienship… War Horse é um must see! A história lembra-nos que na pior das circunstância é-nos sempre permitido sentir amor, sonhar, ter esperança, chorar, desabar e voltar a erguer… que todos os dias enfrentamos pequenas batalhas e que as pequenas vitórias sabem pela vida.

 É um filme contido na fragilidade humana, onde Matt King (George Clooney) nos conduz num labirinto emocional em que se vê desafiado a crescer, passando por momentos de humor e de drama com as suas filhas. É um bom filme, mas acho que as nomeações se devem mais aos nomes no cartaz do que às interpretações ou ao argumento.

 

Roman Polanski apresenta um filme de humor cortante centrado nas diferenças de sexo e na educação que os pais dão aos seus filhos através de um excelente elenco (Jodie Foster, John C. Reilly, Christoph Waltz and Kate Winslet).


Does it make any?

Michael (Ewan McGregor) e Susan (Eva Greenes) interpretam os seus personagens assumindo a responsabilidade de prender o espectador ao início da sua relação amorosa mas, num cenário de pandemia misteriosa, a nossa atenção desvia-se para outras questões: se algum tipo de força erradicar os maiores prazeres, se os meus sentidos desaparecessem, poderia adaptar-me?, poderia seguir em frente com a minha vida?, do que seria capaz quando tudo se tornasse insuportável?

É um filme para ser adorado ou desprezado. Para mim é, sem dúvida, um filme perturbador, mas não deixa de ter uma mensagem simples: o ser humano adapta-se. Seja na construção de uma relação ou na confecção de uma refeição, sejam quais for os obstáculos, o ser humano adapta-se sempre… basta querer.

 


A propósito de sofá…

Amor burguês

Havemos de engordar juntos.

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz “cliente seguinte”, estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos.

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

Nós acreditávamos.

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.”

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)


Ainda bem que é sexta-feira! #15


Porque estou fartinha de trabalho até à ponta dos meus cabelos brancos, porque vou para a santa terrinha, porque vou ver pessoas de que gosto até ao tutano e porque os The Cure vão cantar este e outros sucessos da minha feliz adolescência no Alive’12!


E num piscar de olhos

Este blog já leva com dois anos de palavras dispersas. Parece que foi ontem que passei uma noite com a Madrinha do coração a dispersar sobre nomes possíveis para esta casa…

Obrigada a todos que aqui passam, aos que deixam aqui as suas palavras, aos que se manifestam por email ou sms e até mesmo aos que se reservam ao silêncio. Obrigada aos amigos por quem comecei este blog e àqueles que a blogosfera me trouxe… têm todos um lugar muito especial na minha vida :) Parabéns a vocês por me aturarem há 2 anos :)


Primeiras vezes

Eu espero sinceramente que todos ao meu redor tenham um ano maravilhoso. Acho que já chega de tormentas, de perdas, de sustos e da puta da crise. Merecem todos um 2012 de sonho, cheio de coisas perigosamente e escandalosamente boas, que sejam amados e apreciados e que tenham junto deles todas as pessoas que amam. E, muito importante (porque bondade nunca fez mal a ninguém), que sejam solidários, gentis, procurem estar atentos aos que estão mais isolados, mais carentes, mais doentes, aos que tem no seu lado esquerdo um espaço por preencher… E, também para este ano, desejo-lhes/desejo-vos o que desejo para mim: primeiras vezes. Um desejo pequeno e simples. É isso: primeiras vezes! É errar se for preciso. Porque se estamos a errar é porque estamos a fazer coisas novas, a experimentar coisas novas, a aprender, a viver, a mudar o nosso rumo, a mudarmo-nos, a mudar o nosso mundo e o dos outros. É isso: quero errar. Quero fazer novos erros, ter primeiras vezes de uma série de coisas mesmo que erradas. Não quero ficar parada com medo de arriscar, de perder, não quero parar. Não me quero preocupar em ser perfeita ou boa o suficiente seja para que primeira vez for: no amor, na família, no trabalho, com amigos ou na vida em geral. Quero fazer aquilo que até agora não fiz por medo. Quero primeiras vezes.